Hoje participei da Assembleia Geral da Pós-Graduação. Foi uma experiência importante, ainda que eu tenha saído com uma impressão bastante negativa de tudo.
A assembleia estava marcada para as 18:30, no Anfiteatro Novo II da Física. Para começar a história, eu não fazia ideia de que anfiteatro era esse. Mas não houve problemas: ao me aproximar da Física, vi algumas pessoas com aparência diferenciada – uns Renatos Russos, umas meninas de saia e roupa larga. Seguindo-as, cheguei ao local da assembleia! (prometo que esta vai ser a única piada preconceituosa).
A maioria esmagadora era da FFLCH. Havia um perdido da Poli, um do IAG, alguns da Física. A surpresa ficou por conta da Química. Eu e mais sete (acho) colegas.
A assembleia começou com informes. A maioria sobre o que está ocorrendo nas assembleias de cada unidade e na organização do comando de greve.
Em seguida, vieram as falas para discussão da situação atual da universidade (greve, PM, blábláblá). Nesta parte, pude perceber o abismo que separava as ideias minhas e dos meus colegas de curso das ideias do restante dos “assembleístas”.
A grande maioria parte do pressuposto de que não há possibilidade de conciliação com visões opostas. Ou seja, o movimento não pode se dobrar nem um grau. Aliás, foi digna de risos a reação de todos à fala de um amigo meu, que os fez lembrar que havia pessoas com opiniões contrárias ali presentes.
A organização é disfuncional. Um mutirão de pessoas se inscreve, todos fazem seus discursos engajados e são aplaudidos. Não há debate. Apenas uma visão contrária pôde se manifestar.
Uma fala bastante significativa ocorreu no início. Através dela se extrai todo o “paradigma assembleísta”. O jovem mostrava seu desprezo às decisões tomadas a partir de voto em urna e similares. Segundo ele, nestes casos, as pessoas simplesmente votam e vão embora, sem refletir. Mas, numa assembleia... Há posicionamentos críticos, que levam os presentes a uma reflexão, e somente depois há votação. Ou seja, a assembleia garante que os votantes passem por um processo dialético (hehehe).
A minha opinião é totalmente oposta: assembleias são uma FARSA. As pessoas se iludem pensando que discutiram algo a fundo, e que posteriormente passaram por reflexão profunda antes de votar.
[Pensando bem, quando as pessoas não sabem nada a respeito do tema e precisam de esclarecimentos, a assembleia é válida... Mas totalmente passível de distorções.]
A assembleia é, no entanto, um instrumento muito poderoso para reformistas radicais que estão em minoria (em relação ao panorama geral, e não em relação aos presentes). Muitos que discursam são eloqüentes, passam por relatos pessoais de perseguição, fazem ferver o sangue dos presentes. Ainda que houvesse debate, não conseguiria sequer me conceber dizendo para um estudante: “desculpe, mas você está sendo perseguido e processado porque cometeu um crime. Não há nada de errado nisso”. Eu, hein? (ainda mais que quebrei a perna recentemente e não estou podendo brigar, hehe).
Não critico os “estudantes-políticos”. Eles têm mérito de se expressarem bem em público.
O problema é a chuva de desinformação. Ok, eles podem retrucar dizendo que as minhas informações é que são torpes. Mas, acreditem em mim, há casos flagrantes de imbecilidade e delinqüência intelectual da “pretensa elite” (oh céus!). E ninguém fala nada. Será que todos engoliram as pérolas? Vivem num mundo paralelo?
Uma fala me marcou. Com certeza não foi a mais idiota, mas achei engraçada. Disse a “menina”: “Com um carro de polícia na rua ao lado, a gente não pode pensar livremente. Eu me sinto coagida”. Sério, será que ela sabe o que é coerção? Minha explicação é que o giroflex da viatura a deixa tonta, daí a impossibilidade de pensar livremente. Ou então, pensar livremente implica o uso de drogas ilícitas. Enfim...
Após as falas (que mudaram minha concepção de Universo...), seguiram-se as votações. Esta parte foi a única em que houve certo debate (cinco minutinhos). O primeiro item era o apoio ao primeiro eixo de greve (ou algo do tipo) aprovado em assembleia geral. Resumidamente, o “fora PM”. Primeiramente, a mesa perguntou se havia alguém contrário. O auditório estava cheio, mas só umas dez pessoas levantaram as mãos. Eu, meus colegas, e mais uns dois perdidos. Chamaram representantes contrários e a favor. Uma colega e meu amigo mais intrépido (e provavelmente o mais apto a um debate naqueles moldes) se apresentaram. Ainda que a nossa defesa tenha sido bastante coerente, não mudou nada. Talvez tenha faltado uma pitada de drama e discurso fervoroso? Fez-se a votação e nós fomos derrotados de lavada, como esperado.
Fui embora.
É curioso que, após o acontecido, me passaram pela cabeça várias falas que colocariam em cheque muitos argumentos apresentados pela visão contrária. No final, assembleias podem funcionar como um treino de retórica. Pensei em freqüentá-las para treinar debates e discursos. Mas logo desisti. Não tenho tempo.
Também tenho sérias dúvidas se mudaria algo.
Mesmo que eu fizesse um discurso digno de Barack Obama.
É... essa foi minha segunda tentativa (após uma no 1º ano de graduação) de uma assembleia geral de estudantes. E foi tão ruim quanto, ou até pior, uma vez que "cresci" e assumi mais posicionamentos.
ResponderExcluirDemoramos mais que vocês para ir embora - ficamos até decidirem a data da próxima assembleia.
Por sinal, será na Poli. Será que temos "alguma chance" dessa vez? ;)
Poucas vezes me senti tão peixe fora d'água quanto ontem nessa assembleia. Sentimento parecido que o "outro lado" deve ter ao navegar nessas mídias sociais da vida. Normal, ninguém gosta de dar murro em ponta de faca. Só que é muito mais fácil dar a cara para bater atrás de teclados do que na frente de 300 pessoas.
ResponderExcluirÉ hipocrisia clamar para que votações oficiais sejam realizadas só em assembleias, um sistema viciado com resultado pré-determinado. Tanta hipocrisia quanto se as eleições fossem via Facebook. Enquanto votações via Sistemas USP não for aprovado/viabilizado, as urnas são a melhor opção. Vota quem quer. Um voto por pessoa (e não dois votos por dois braços ou dez por dez contas no orkut...). Que um lado use sua oratória superior e que o outro use textos lógicos e bem articulados como este para defender seus pontos de vista. Que a maioria vença e a democracia deixe de ser a ditadura da minoria com a maioria omissa só jogando Magic.
Deixa eu parar que eu escrevi demais. Ih, acho que vou faltar no basquete...
Parabéns pelo Blog e pelo texto Renan. Concordo com suas palavras.
ResponderExcluirE pelos e-mails que eu ando recebendo do IQ o assunto está sendo discutido bastante.
Abraços.