quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Assembleia!

Hoje participei da Assembleia Geral da Pós-Graduação. Foi uma experiência importante, ainda que eu tenha saído com uma impressão bastante negativa de tudo.
A assembleia estava marcada para as 18:30, no Anfiteatro Novo II da Física. Para começar a história, eu não fazia ideia de que anfiteatro era esse. Mas não houve problemas: ao me aproximar da Física, vi algumas pessoas com aparência diferenciada – uns Renatos Russos, umas meninas de saia e roupa larga. Seguindo-as, cheguei ao local da assembleia! (prometo que esta vai ser a única piada preconceituosa).

A maioria esmagadora era da FFLCH. Havia um perdido da Poli, um do IAG, alguns da Física. A surpresa ficou por conta da Química. Eu e mais sete (acho) colegas.

A assembleia começou com informes. A maioria sobre o que está ocorrendo nas assembleias de cada unidade e na organização do comando de greve.
Em seguida, vieram as falas para discussão da situação atual da universidade (greve, PM, blábláblá). Nesta parte, pude perceber o abismo que separava as ideias minhas e dos meus colegas de curso das ideias do restante dos “assembleístas”.
A grande maioria parte do pressuposto de que não há possibilidade de conciliação com visões opostas. Ou seja, o movimento não pode se dobrar nem um grau. Aliás, foi digna de risos a reação de todos à fala de um amigo meu, que os fez lembrar que havia pessoas com opiniões contrárias ali presentes.
A organização é disfuncional. Um mutirão de pessoas se inscreve, todos fazem seus discursos engajados e são aplaudidos. Não há debate. Apenas uma visão contrária pôde se manifestar.
Uma fala bastante significativa ocorreu no início. Através dela se extrai todo o “paradigma assembleísta”. O jovem mostrava seu desprezo às decisões tomadas a partir de voto em urna e similares. Segundo ele, nestes casos, as pessoas simplesmente votam e vão embora, sem refletir. Mas, numa assembleia... Há posicionamentos críticos, que levam os presentes a uma reflexão, e somente depois há votação. Ou seja, a assembleia garante que os votantes passem por um processo dialético (hehehe).
A minha opinião é totalmente oposta: assembleias são uma FARSA. As pessoas se iludem pensando que discutiram algo a fundo, e que posteriormente passaram por reflexão profunda antes de votar.
[Pensando bem, quando as pessoas não sabem nada a respeito do tema e precisam de esclarecimentos, a assembleia é válida... Mas totalmente passível de distorções.]
A assembleia é, no entanto, um instrumento muito poderoso para reformistas radicais que estão em minoria (em relação ao panorama geral, e não em relação aos presentes). Muitos que discursam são eloqüentes, passam por relatos pessoais de perseguição, fazem ferver o sangue dos presentes. Ainda que houvesse debate, não conseguiria sequer me conceber dizendo para um estudante: “desculpe, mas você está sendo perseguido e processado porque cometeu um crime. Não há nada de errado nisso”. Eu, hein? (ainda mais que quebrei a perna recentemente e não estou podendo brigar, hehe).
Não critico os “estudantes-políticos”. Eles têm mérito de se expressarem bem em público.
O problema é a chuva de desinformação. Ok, eles podem retrucar dizendo que as minhas informações é que são torpes. Mas, acreditem em mim, há casos flagrantes de imbecilidade e delinqüência intelectual da “pretensa elite” (oh céus!). E ninguém fala nada. Será que todos engoliram as pérolas? Vivem num mundo paralelo?
Uma fala me marcou. Com certeza não foi a mais idiota, mas achei engraçada. Disse a “menina”: “Com um carro de polícia na rua ao lado, a gente não pode pensar livremente. Eu me sinto coagida”. Sério, será que ela sabe o que é coerção? Minha explicação é que o giroflex da viatura a deixa tonta, daí a impossibilidade de pensar livremente. Ou então, pensar livremente implica o uso de drogas ilícitas. Enfim...

Após as falas (que mudaram minha concepção de Universo...), seguiram-se as votações. Esta parte foi a única em que houve certo debate (cinco minutinhos). O primeiro item era o apoio ao primeiro eixo de greve (ou algo do tipo) aprovado em assembleia geral. Resumidamente, o “fora PM”. Primeiramente, a mesa perguntou se havia alguém contrário. O auditório estava cheio, mas só umas dez pessoas levantaram as mãos. Eu, meus colegas, e mais uns dois perdidos. Chamaram representantes contrários e a favor. Uma colega e meu amigo mais intrépido (e provavelmente o mais apto a um debate naqueles moldes) se apresentaram. Ainda que a nossa defesa tenha sido bastante coerente, não mudou nada. Talvez tenha faltado uma pitada de drama e discurso fervoroso? Fez-se a votação e nós fomos derrotados de lavada, como esperado.
Fui embora.

É curioso que, após o acontecido, me passaram pela cabeça várias falas que colocariam em cheque muitos argumentos apresentados pela visão contrária. No final, assembleias podem funcionar como um treino de retórica. Pensei em freqüentá-las para treinar debates e discursos. Mas logo desisti. Não tenho tempo.
Também tenho sérias dúvidas se mudaria algo.
Mesmo que eu fizesse um discurso digno de Barack Obama.

3 comentários:

  1. É... essa foi minha segunda tentativa (após uma no 1º ano de graduação) de uma assembleia geral de estudantes. E foi tão ruim quanto, ou até pior, uma vez que "cresci" e assumi mais posicionamentos.
    Demoramos mais que vocês para ir embora - ficamos até decidirem a data da próxima assembleia.
    Por sinal, será na Poli. Será que temos "alguma chance" dessa vez? ;)

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  2. Poucas vezes me senti tão peixe fora d'água quanto ontem nessa assembleia. Sentimento parecido que o "outro lado" deve ter ao navegar nessas mídias sociais da vida. Normal, ninguém gosta de dar murro em ponta de faca. Só que é muito mais fácil dar a cara para bater atrás de teclados do que na frente de 300 pessoas.

    É hipocrisia clamar para que votações oficiais sejam realizadas só em assembleias, um sistema viciado com resultado pré-determinado. Tanta hipocrisia quanto se as eleições fossem via Facebook. Enquanto votações via Sistemas USP não for aprovado/viabilizado, as urnas são a melhor opção. Vota quem quer. Um voto por pessoa (e não dois votos por dois braços ou dez por dez contas no orkut...). Que um lado use sua oratória superior e que o outro use textos lógicos e bem articulados como este para defender seus pontos de vista. Que a maioria vença e a democracia deixe de ser a ditadura da minoria com a maioria omissa só jogando Magic.

    Deixa eu parar que eu escrevi demais. Ih, acho que vou faltar no basquete...

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  3. Parabéns pelo Blog e pelo texto Renan. Concordo com suas palavras.

    E pelos e-mails que eu ando recebendo do IQ o assunto está sendo discutido bastante.

    Abraços.

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